As Crônicas de Dragonlance são, para muitos, a trilogia que representa a literatura definitiva do que seja Dungeons & Dragons. Uma obra que impactou o gênero da fantasia muito mais do que as pessoas dão crédito. Uma leitura que é obrigatória para qualquer fã de fantasia em geral, mas em especial para os jogadores de RPG.
Dividida em três livros (trilogia!), os títulos de cada volume são, em si só, expressões da genialidade da obra. Dragões do Crepúsculo de Outono (vol.1), Dragões da Noite de Inverno (vol. 2) e Dragões da Alvorada de Primavera (vol. 3) são não apenas um chamariz para os leitores ávidos por aventuras fantásticas; são também a expressão da passagem do tempo e dos arcos de história. Início, meio e fim expressados bela e poeticamente com sutileza e coesão estilística.
As artes das capas merecem menção especial. Larry Elmore, ao definir a identidade visual de Dragonlance, capturou a essência de Dungeons & Dragons e conquistou muitos novos leituras apenas com sua arte. Eu sei bem, fui dos milhões de leitores que antes mesmo de abrirem os livros, já estavam intrigados e mesmerizados pelas ilustrações magníficas de personagens e cenários que somente depois viria a conhecer.
Lançados na primeira metade da década de 1980 (estranho ter que referir o “1900” junto; sinal de que o tempo passa mais rápido do que gostaríamos de admitir), eu ainda era criança em processo de alfabetização. Mas isso não impede que lembre, com nostalgia, claro, a fascinação com que eu admirava cada ilustração das capas dos livros de Dragonlance, que após o sucesso da sua trilogia da Guerra da Lança, desencadeou toda uma miríade de novos livros, de romances a manuais de cenário e campanha para D&D.
À época, nós comprávamos as nossas revistinhas e gibis em uma tabacaria (sim, tabacaria) perto de onde morávamos. A memória é viva das inúmeras vezes em que precisei segurar a respiração na entrada da loja para passar pela imensa nuvem de fumaça de cigarro que havia em frente ao caixa, onde ficava a dona da tabacaria, para somente então voltar a respirar no fundo, onde ficavam as revistas.
A exposição das revistas, adultas ou infantis, eram separadas, justamente para dar espaço para mostrar as capas dos lançamentos de gibis, confiantes de que o público infanto-juvenil, ao contrário do adágio popular, julgaria, sim, o livro pela capa. Naquela época, eu estava em transição dos gibizinhos da Disney e Turma da Mônica para os quadrinhos de super-heróis (Marvel e DC). Mas cada visita à tabacaria (que era quase diária, pela minha fascinação com as revistinhas) me chamavam a atenção as capas de livros e revistas colocados na prateleira logo acima dos gibizinhos. Eram dragões, guerreiros em armaduras, espadas, magia, heróis musculosos e belas mulheres semi-nuas. Cada imagem, uma mais bela que a outra, expressava ação, heroísmo e aventura. E em seus títulos, liam-se Dragonlance ou A Espada Selvagem de Conan (uma outra história para um outro momento).
Cresci com aquele imaginário fantástico representado nas capas de Dragonlance, nas linhas e cores de Larry Elmore, que definiram minha idealização imaginária de fantasia muito antes de descobrir e conhecer o próprio Dungeons & Dragons ou até mesmo Senhor do Anéis. No cinema, os anos 80 (agora sim, apenas “oitenta”) foram pródigos em filmes de aventura e fantasia, de capa-e-espada a espada-e-feitiçaria, alta e baixa magia. A iconografia era suficiente para despertar a imaginação de moleque, que viria a perdurar uma vida toda após a descoberta formal, nos anos 90, do RPG (D&D, pra ser exato).
Mesmo impressionado e marcado pelos nomes épicos e ilustrações maravilhosas, mesmo abraçando o hobby e jogando RPG semanalmente com fiel grupo de amigos, minha primeira leitura das Crônicas de Dragonlance ocorreu somente após a virada do milênio, depois do D&D, depois dO Senhor dos Anéis. Livros emprestados por um de meus melhores e fiéis amigos. E aquela leitura me impressionou, por sua história grandiosa e épica, de guerra da luz (bem) contra as trevas (mal) com muitos graus de sombras, ao ponto de eu desejar revisitar o mundo de Krynn, mais de vinte anos depois.
Há poucos dias conclui a leitura do volume três da trilogia, Dragões da Alvorada da Primavera e, diferentemente da primeira leitura, tive a consciência de que o eu-leitor, assim como os personagens da obra com seus arcos de desenvolvimento, não era mais o mesmo do início da leitura de Dragões do Crepúsculo de Outono.
O primeiro aspecto que devo mencionar, apenas para atestar o óbvio, é que o homem que sou hoje não é mais o mesmo jovem que fui vinte, vinte e cinco anos atrás. Nenhum de nós permanecemos imutáveis. Neste período de mais de duas décadas, passei por diversas experiências que me forçaram a amadurecer e a perceber o mundo e a vida de formas completamente diferentes. Boletos a pagar, responsabilidades e consequências da vida adulta, eventos de extrema alegria (nascimento de meus dois filhos, que me dão sentido) e de extrema tristeza (dois períodos de profunda depressão), deixaram marcas na pessoa que sou hoje. Marcas que, agora, não importam serem adjetivadas como boas ou más. Apenas são. São parte de quem sou hoje, e não há como me dissociar do que vivi. Apenas seguir em frente.
Pois esta nova, ou melhor, diferente pessoa é o leitor que decidiu recuperar o perdido no tempo hábito da leitura, tão presente quando aquele primeiro leitor concluiu sua leitura das Crônicas e vivenciou a vitória sobre Tiamat (eu sei, eu sei, Takhisis, mas convenhamos, Tiamat desperta memórias mesmo nos que nunca leram ou jogaram D&D). E esta nova leitura veio carregada de significados e (re)descobertas.
Para contexto, durante minha recuperação do mais recente quadro de depressão, busquei (com ajuda, não conseguiria sozinho) retomar hábitos que me traziam alegria, felicidade, satisfação. Foi assim que iniciamos, meus filhos e eu, um grupo de RPG, com sessões mensais onde eu, mais velho e experiente no hobby, assumi a responsabilidade de Mestre do Jogo (“mestre da masmorra”, tradução literal de Dungeon Master, é muito sinistra; talvez Mestre dos Magos ficasse de bom tamanho, como em Caverna do Dragão…). Meus filhos e eu, junto de alguns de seus amigos e colegas de escola, já havíamos nos aventurado, durante os anos de pandemia, em jogar RPG por vídeo chamada. Nos divertimos, foi legal propiciar para eles o primeiro contato com o hobby, mas faltava algo a mais. A interação da mesa e o convívio pessoal.
Nessas sessões de jogo, coube a mim adotar um conjunto básico de regras – Dungeon & Dragons, D20. Não poderia ser outro. Mas em vez de adotar um cenário de campanha pré-determinado, fiz o que sempre fazíamos, meus fiéis amigos rpgistas e eu. Criei livremente nosso próprio mundo de aventuras. Ou assim pensava eu.
A ameaça do retorno de Tiamat – um clichê nas mesas de RPG – foi minha escolha. Afinal, dragões! Quem não gosta de dragões? Como eu conquistaria jovens do século XXI para tardes analógicas, com papel, lápis e dados isométricos, completamente desconectados das redes, sem algo poderoso capaz de inspirar a imaginação e ativar a curiosidade heroica deles?
Sem perceber, bebi muito da fonte de Dragonlance para a narração de nossas tardes de jogo. Ainda que minha fonte primária e consciente fosse outra, haviam elementos “dragonlancianos” (acho o neologismo apropriado) na história. E a medida que a trama foi avançando, e meu ânimo foi elevando, um achado inesperado ocorreu, cujas reverberações são sentidas neste exato momento em que escrevo.
Durante uma Feira do Livro de Porto Alegre, caminhando por entre as bancas e pesquisando em caixas de saldos e/ou de livros de segunda mão, encontrei à venda a trilogia completa de Dragonlance. A primeira trilogia. A mesma edição que li tantos anos atrás. A mesma história que inconscientemente inspirara meu atual jogo de RPG. A mesma obra que abre o primeiro parágrafo desde texto. Coincidência, sorte ou destino, pouco importa. No momento em que vi o bom estado das brochuras, comprei, sem exitar, sem barganhar. Qualquer preço pedido seria pouco pelo significado para mim.
O início da leitura ainda levou um mês após a compra. Por quê? Porque sim, foi o que aconteceu. Ao longo dos anos – último dez anos, mais exatamente – deixei de priorizar a leitura como relaxamento ou hobby. Meu período de arrefecimento do estresse diário passou a ser a noite – não raras vezes, depois da meia-noite. Cansado, no escuro, sem um espaço adequado, abandonar a leitura em prol do computador e dos vídeos foi algo quase natural, de tão imperceptível. Mas eu desejava retomar algo que me trouxesse bem-estar, um hábito que fosse indiscutivelmente positivo. Eu queria retomar a leitura. E Dragonlance me ajudou nesta conquista. Na cabeceira da cama, enquanto escrevo, já há um novo livro a espera. Contos originais de Conan, o Bárbaro (eu disse, outra história para outro momento).
O que eu não esperava era que a experiência da leitura, dessa segunda leitura das Crônicas de Dragonlance, fosse tão diferente da primeira. Naquela ocasião, ainda jovem, o arco heroico, os acontecimentos da própria exploração do mundo de Krynn e da guerra foram o que mais me marcaram. A identificação clara de elementos de Dungeons & Dragons nas linhas dos textos de Margaret Weiss e Tracy Hickman, a luta do bem contra o mal… Estas foram as impressões mais fortes então. E ainda que eu lembre vividamente de inspirar um de meus próprios personagens de D&D em Tasslehoff Pés-Ligeiros, somente agora, mais velho, experimentei uma jornada de emoções ao longo da leitura com os dramas pessoais dos personagens. E isto foi algo que me pegou inteiramente despreparado.
A descrição da trupe heroica estabelece, já no início do primeiro capítulo, de forma muita clara, que são amigos aventureiros que se reencontram, depois de cinco anos, em Solace, a cidade que eles tinham como lar. As relações pessoais entre Tanis Meio-Elfo, Flint Forjardente, Sturm Montante Luzente, Caramon e Raistlin Majere, Tasslehoff Pés-Ligeiros, Lua Dourada e Ventania já existem antes mesmo de abrirmos o livro e lermos a primeira página. Cabe ao leitor descobrir, ao longo dos três volumes, as relações passadas na mesma medida em que estas são desafiadas e transformadas pelos acontecimentos presentes da Guerra da Lança, que serve de palco para, junto com a grande história maior, desenvolver cada arco de história individual.
Lealdade, honra, coragem, altruísmo. Traição, maldade, ganância e egoísmo. Amor, ódio, conquistas e perdas. Ambição, abnegação, resiliência. Alegria e tristeza, orgulho e decepção. Tudo isto, e mais, é experimentado ao longa da leitura. Cada evento individual e pessoal de drama e emotividade das personagens me despertou emoções, tamanha a correlação que minha mente fez, nesta oportunidade, com sentimentos que eu mesmo experimentara nestes últimos vinte anos, ou que apenas agora, passados anos após os quarenta de vida, sou capaz de compreender.
Em cada um dos personagens descobri um pedaço de mim. E em cada interação dos relacionamentos entre os companheiros de aventura, identifiquei um pouco das minhas próprias relações familiares. Na agonia de Tanis em liderar os heróis e salvar o mundo enquanto busca compreender sua própria identidade, enxerguei minha ansiedade e constante desejo de manter o controle sobre o incerto futuro. No peso da idade de Flint, que ingressa no inverno de sua vida, enxerguei a proximidade da morte, da finitude, minha, de meus pais, e a percepção de que nada é para sempre. No sofrimento dos joviais Tas e Laurana, forçados a encontrar maturidade ante os horrores da guerra e das perdas pessoais, pude perceber o fim da ingenuidade infantil de meus filhos. A tensão constante do complicado relacionamento entre os gêmeos Caramon e Raistlin me remeteu, em múltiplas ocasiões, a pensar em minha irmã e a refletir em como nos relacionamos. Em Lua Dourada, de pura esperança no futuro melhor, e seu noivo Vendaval, de compromisso apaixonado mesmo perante as maiores agruras, retirei exemplos e lições para meu próprio casamento. E em cada evento, pude sentir um suspiro profundo, um nó na garganta, um aperto no peito, ou um frescor de olhos úmidos.
E Sturm… O que eu poderia dizer, que não revele a história e estrague a experiência de você, improvável leitor? Sturm é a personificação das virtudes, da cavalaria romântica. É o arquétipo que todo menino, em algum momento, desejou ele próprio ser. E sua história é, sem dúvida, das mais emocionantes. Aquele que não derruba lágrimas com Sturm Montante Luzente, não possui um coração quente.
Ao longo dos meses de leitura dos três volumes, revivi uma jornada fantástica, resgatei velhos hábitos, reconectei-me com vários sentimentos. Foi uma leitura lenta, como a marcha de um sedentário que volta a praticar caminhadas. Mas foi ótimo estender por mais tempo essa experiência. Para que eu pudesse lutar, dentro de mim mesmo, contra a escuridão de Takhisis, dar espaço para a luz de Paladine e reencontrar, enfim, o equilíbrio.
Achou confuso o que escrevi, ou não entendeu o significado? Sem problemas. Apenas leia as Crônicas de Dragonlance. Eu recomendo.

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