Muito importante para todos os que lerem as postagens: por vezes estarei falando sério, postando opiniões próprias. Outras vezes estarei brincando com opiniões que poderiam ser minhas, mas não são. E por vezes postarei material totalmente fictício, frutos da imaginação e talvez um pouco influenciados pelas experiências acumuladas ao longo dos anos.
Distinguir o que é realidade e o que é ficção fica a cargo de cada um.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Gauchos das Sombras - Cap. 9: Cúpula Militar

A Major Aline Staussmann era a única mulher oficial da Força Sombra. Em um ambiente machista, ela conquistou o respeito de todos. Sua competência e lealdade eram inquestionaveis. Todos lembravam do episódio alguns anos antes, quando, cumprindo ordens da cúpula militar gaucha, assassinou a então Supervisora do Estado.

A Supervisora, indicada pelo já então Ministro da Justiça, Segurança e Bem-Estar, viera de São Paulo para administrar os gaúchos com mão de ferro. Desde sua chegada, animosidades politicas reacenderam e inflamaram antigas pautas separatistas. A Assembleia Legislativa, apesar de seu papel puramente figurativo em razão do tradicionalismo gaúcho, foi dissolvida pela primeira vez na história do Império. Foi então que o Partido Pela Independência, atuando na clandestinidade, iniciou uma campanha popular pela desmoralização da Supervisão do Império no Rio Grande do Sul. Acusações de corrupção e desvio de dinheiro público eram apenas o início. Suspeitas de favorecimentos e desvios de dinheiro público em favor de empresas situadas em Brasília e São Paulo eram veiculadas em sites na Internet com base no exterior. A mídia impressa, de rádio e de televisão estava sob o controle da Polícia Ideológica e do Ministério da Informação Oficial, mas a Internet permanecia livre, para o desespero da Supervisora. Em resposta, com a concordância do Ministro da Justiça, foi decretada a execução sumária de qualquer um suspeito de colaborar com o PPI.

domingo, 25 de outubro de 2009

Gauchos das Sombras - Cap. 8: Baixas

Na sala de espera do Hospital dos Veteranos de Guerra, em Porto Alegre, Getúlio esperava impacientemente ao lado da máquina de café. O HVGPA, construído na zona de sul da Capital, apresentava o mais moderno centro cirúrgico para tratamento de feridos de guerras no sul do continente americano. “Impressionante”, pensou, “toda a tecnologia do mundo e não são capazes de comprar uma máquina que faça um café decente.” Quando a enfermeira apareceu na porta, de súbito ficou em pé.

- Como ele está? – perguntou Getúlio.

- Vivo. Mas os médicos não sabem dizer quando ou se irá acordar.

A notícia fez com que a expressão na rosto de Getúlio se endurecesse ainda mais. Na verdade, não tinha nenhuma empatia pelo tenente Douglas Zuchinni. Mas como soldado, não podia deixar de se solidarizar. Podia ser ele, Getúlio, deitado naquela maca da UTI. Sabia que o jovem oficial tinha apenas setenta e duas horas para apresentar melhoras significativas que permitissem aos médicos concluírem que teria uma chance de recuperação superior a oitenta porcento. Do contrário, seria recondicionado para o campo de batalha. E esse pensamento fazia Getúlio sentir um frio na espinha.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Gauchos das Sombras - Cap. 7: Invasão de Domicílio

Arnaldo de Sá Magalhães Sobrinho – o Arnaldinho – saboreava um fino licor de damasco com um sorriso nos lábios. A pressão de seus superiores havia diminuído, graças ao seu sucesso em Itaipu. O serviço de inteligência das Polícias Ideológicas estava certo: o Rio Grande do Sul planejava uma investida contra Itaipu I e II. Todavia, a ordem dada por Arnaldinho para o remanejamento das tropas anteriormente estacionadas em Florianópolis para a proteção das duas maiores hidrelétricas do mundo interrompei o avanço do comboio militar dos sulistas. Por certo ficaram amedontrados com as defesas planejadas, a ponto de fugirem para território argentino. O sabor da vitória era doce. E com um teor alcoólico de vinte e cinco por cento.

Arnaldinho foi até o bar que mantinha no fundo de seu escritório domiciliar para servir mais uma dose. Foi nesse momento que sua secretária particular suavemente abriu a porta. Ele nunca vira mulher mais estranha. De jeito algum poderia ser considerada bonita, e para piorar, usava roupas masculinas. Arnaldinho a havia empregado como retribuição ao lobby exercido por um dono de laboratório farmacêutico amigo de sua família em sua campanha para a chefe da Polícia Ideológica. Segundo fora informado, ela possuiria habilidades que possivelmente lhe fizesse a melhor secretária em toda a estrutura burocrática da região sul. Ali, na calada da noite, degustando seu licor de damasco, Arnaldo teve de reconhecer que ela era realmente uma excelente funcionária.

- Senhor, houve uma explosão na Ponte de Acesso 3. Alguma ordem?

sábado, 17 de outubro de 2009

Gauchos das Sombras - Cap. 6: Plano B

- Merda. Puta que pariu.

Os impropérios eram um desabafo. O plano de sair do continente e ingressar na Ilha de Santa Catarina através do mar, na calada da noite, não podia mais ser levado adiante. Getúlio não estava desapontado, mas sim irritado com as falhas na estratégia elaborada pelo Tenente Douglas. Na verdade, estava irritado com o próprio Tenente Douglas. A estratégia que fosse para o inferno.

Douglas era um guri de apenas dezessete anos. Alistou-se no serviço militar gaúcho com apenas quatorze anos, quando os coronéis da Brigada começaram a articular a criação de um exército insurgente. Douglas Zuchinni, ao saber do alistamento, convenceu seus pais a assinarem a autorização para a incorporação na Força Sombra, o Comando de Operações Secretas e Especiais – também chamado de Quarta Força. Disse-lhes que era uma viagem de colégio até o litoral. Apenas não podia imaginar que sua astúcia lhe renderia treinamento especial no Centro de Preparação de Oficiais das Sombras – CPOS. Desde então, nunca mais viu seus pais, em Caxias do Sul.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Gauchos das Sombras - Cap. 5: Preparativos

Atravessar a fronteira e ingressar em território pan-brasileiro não foi nada fácil. As trilhas percorridas por três dias e quatro noites através dos canyons a partir de Cambará do Sul escondiam perigos e eram surpreendentemente bem vigiadas pelos postos de fronteira. Mas a tarefa, quando comparada a invadir a Zona de Segurança Burocrática na Ilha de Florianópolis, mais parecia um passeio no shopping. Esse sim seria o grande desafio.

A noite era fria e úmida. Desde a destruição da porção meridional da camada de ozônio, os hábitos das populacões pasaram por transformações. A vida noturna se intensificou e muitas empresas passaram a adotar o horário comercial durante a madrugada. Durante o dia, apenas locais protegidos por escudos de ozônio, criados a partir de escassas e caríssimas torres de geração, abrigavam algum tipo de movimento ou agito. A noite, portanto, não representaria nenhum auxilio na misão de invadir a residência oficial do Chefe Regional da Policia Ideológica.

Getúlio, quieto e pensativo, preparava-se para a execução da missão. O esconderijo escolhido – uma maloca a apenas alguns quilometros da ponte de acesso à ilha – era sujo e fétido. O local ideeal para todos os ratos e baratas que ali estavam. Por outro lado, Getúlio ficou surpreso com a preparação do Exército Farroupilha. Qualquer equipamento que pudesse pensar necessário estava a sua disposição.

Somente ao preparar um estojo com injeções morfina percebeu que o ferimento em seu ombro não mais doía. Em verdade, desde a noite em que Aline invadiu sua tenda camuflada, durante um descanso noturno na travessia da fronteira, não sentia mais o desconforto.

Deixou seus preparativos de lado. Apoiado numa mesa suja de graxa, de frente para a parede de tábuas de madeira, Getúlio pedeu-se em seus pensamentos. Não conseguia decifrar aquela mulher. Sempre que ela lhe dirigia a palavra, era com arrogância e petulância. Quando lhe dirigia um olhar, era com lascívia e desprezo ao mesmo tempo. Mas naquela noite ela se entregara de corpo e alma. “Será mesmo?” Refletiu, pensou e não conseguiu chegar a nenhuma conclusão. Por certo Getúlio gostara de ter em suas mãos um corpo perfeito como o de Aline. Todavia, o ato sexual em si fora por demais agressivo, de ambas as partes, para que pudesse haver uma entrega – ao menos da alma. E tão logo ficou satisfeita, ela lhe dera um sorriso e, ainda se vestindo, deixou-o sozinho, nu, de costas no chão frio. O que significara aquilo?

- Todos prontos? Sargento Borges?

A voz de Aline, com imponência e altivez habitual, tirou Getúlio de seus pensamentos. Ao se virar, notou que o grupo, formado por mais três soldados de elite e pela própria Major Straussman, estava apenas lhe esperando.

Getúlio então assumiu seu lado militar. Tirou de sua mente qualquer pensamento que não o objetivo da missão. Seu rosto visivelmente perdeu qualquer traço de sentimento ou expressão. Faltavam apenas alguns detalhes. Aplicou sobre o ombro ferido Emplasto Poroso Sabiá com anestésico. Jogou nas costas sua pequena mochila com os equipamentos para a missão. E então, com satisfação e capricho apanhou suas armas. Uma pistola automática Glock-Smith .45 série GS31 com silenciador, para a sutileza. Uma antiga Ithaca 37 calibre 12 com cartuchos explosivos para a grosseria. E o seu revólver Cambará .38 com balas de Césio 37, para seu divertimento.

Na saída do esconderijo, com Getúlio tomando a dianteira do grupo, a Major Aline Straussmann soube que escolhera o homem perfeito.

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