Muito importante para todos os que lerem as postagens: por vezes estarei falando sério, postando opiniões próprias. Outras vezes estarei brincando com opiniões que poderiam ser minhas, mas não são. E por vezes postarei material totalmente fictício, frutos da imaginação e talvez um pouco influenciados pelas experiências acumuladas ao longo dos anos.
Distinguir o que é realidade e o que é ficção fica a cargo de cada um.

sábado, 21 de abril de 2012

Gaucho das Sombras - s02e03 - Diplomacia

 O Embaixador ainda tentava entender como tudo virara um caos em apenas alguns segundos. Acelerando a Yamaha 7500iE modelo Dakar, preparada para o caso de fugas de emergência, revivia aqueles momentos enquanto olhava aguçadamente em diante, na esperança de enxergar alguma patrulha caminera castelhana. Instintivamente, tocou com a mão esquerda no bolso de seu terno – arruinado pelas explosões – para garantir que o fruto de toda a operação estivesse em segurança. Ao sentir que a embalagem especial de armazenamento de tecidos biológicos estava consigo, o Embaixador voltou a acelerar. De pouco adiantaria escapar dos atacantes que praticamente destruíram o frigorífico se o maior inimigo era o sol e a radiação UV do Sertão Pampeano.

Ajustou os óculos protetores com lentes ShadowLux (parte do equipamento de rally que acompanhava a motocicleta) e começou a relembrar o acontecido. El Carnicero já tinha feito seu trabalho e estava no começo da diversão. Getúlio Borges, é bem verdade, não soltara um grito sequer durante o procedimento, o que apenas deixou el Carnicero ainda mais furioso. O Embaixador não podia deixar de apreciar o espetáculo de tortura imposta ao riograndense. Assim como não podia deixar de reconhecer que um exército construído a partir de aprimoramentos genéticos a partir das células zigóticas de Getúlio tinha o potencial de dominar impérios...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os Camaradas

 Carnaval.

Não importava em quantos shows de rock, heavy metal ou reaggea fomo ao longo do ano. Todo verão, naquela mesma época do ano, Ricardo, Julinho, Cenoura, Rafão e eu tirávamos as camisetas Megaforce e colocávamos os colares de havaiana. Era carnaval na SAP – Sociedade dos Amigos da Praia, reconhecidamente o Maior Carnaval do Litoral Gaúcho!

Todo ano era a mesma coisa. Eu economizava a grana durante o veraneio apenas para comprar a camiseta de algum bloco e ganhar as entradas para as cinco noites de carnaval. Era o fim de inúmeras festas apenas tomando goles da cerveja dos guris – especialmente do Rafão e do Cenoura, parceiraços – e o início de altos tragos.

Porque para nós, afinal, baile de carnaval, com marchinhas e o escambal, significavam apenas duas coisas: bebida liberada e mulheres (liberadas, de preferencia).

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A Verdade

Debaixo dos litros de água quente que se despejavam do chuveiro elétrico, Cléber tentava, em vão, livrar-se daquela sensação desagradável. Desde sempre era tido por todos seus amigos e conhecidos e familiares como um exemplo de marido fiel e respeitoso. Ele mesmo sentia-se assim. Casara-se ainda quando jovem com sua alma gêmea, sua metade da laranja. Eram felizes e um casal exemplar. Jamais pensara em cometer qualquer ato que pudesse, ainda que remotamente, ser considerado uma traição. Mas tudo isso mudara. Ali, embaixo do chuveiro, Cléber revivia cada segundo daquela tarde quente. E a cada memória, sentia-se sujo, imundo, adúltero.

Ainda lutava para compreender como tudo acontecera. Foi tudo muito rápido. Cléber estava dirigindo seu carro, um confortável e elegante sedan nacional, quando viu na calçada, em frente ao banco, uma garota irresistivelmente linda. Caminhava a passos decididos, firmes, com um rebolado que Cléber pensara não existir nesse mundo. Os cabelos volumosos e negros contrastavam contra pele alva e lisa, imaculadamente perfeita. O vestido curto de verão, simples porém sensual, exibia pernas e ombros. Encimada em sapatos de salto alto, Cléber não conseguiu desviar o olhar. O mais impressionante é que nunca sentira-se atraído por mulheres mais jovens. Mas aquela ninfeta era impossível de resistir.

Sem saber de onde veio o impulso, parou o carro ao lado da moça. Ele a admirara apenas de costas, mas mesmo assim estava decidido: precisa tomar uma atitude. Que atitude? Cléber jamais fora o tipo conquistador. Seu casamento mesmo não foi iniciativa sua, precisou ser conquistado, galanteado. Cléber, no fundo de sua mente, percebia o ridículo da situação. Não sabia sequer o que dizer a uma garota.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Plantão noturno

Hoje o dia foi, todo ele, uma preparação. Tanto psicológica quanto logística. Sempre é assim nos dias (e noites) em que a Taísa tem plantão.  Nessas datas, minha rotina muda completamente para que eu possa estar em casa a permitir que, as 19 horas (horário de Brasília), Taísa possa entrar no seu plantão noturno.


Hoje, por exemplo, foi um desses dias. O almoço, a ida ao supermercado, a hora do banho, tudo foi pensado deliberadamente para que, chegado o fim da tarde, Tita fosse para o plantão e eu ficasse sozinho com o Henrique durante a noite.


Por mais prazeroso que se seja, é uma responsabilidade enorme. Henrique ainda está na fase em que precisamos manter um olho em cima dele a todo instante. Qualquer saída do ambiente é corrido, às pressas. Em todas as vezes que preciso deixá-lo sozinho (normalmente brincando dentro do berço ou em cima da cama), sem exceção,  meus ouvidos se aguçam e passo a escutar todo e qualquer suspiro que ele dê.  Sem exageros.


Mas a tensão maior é durante a madrugada.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Gauchos das Sombras - s02e02 - Ao resgate

Finalmente a nuvem de poeira sentara. Por detrás de uma antiga taipa, Aline espreitava à distância com um velho e ultrapassado binóculo militar Steiner -Mills 720 7x90 R. Provavelmente sobra do exército rebelde do sul na Insurreição dos 30 Dias, vários anos atrás. A Insurreição fora a origem do Novo Movimento Farroupilha, que iria desencadear a independência arduamente conquistada pelo Rio Grande contra a opressão e tirania do Império Democrático Pan-Brasileiro – ou seja lá qual fosse a nomenclatura atual dada ao poder central de Brasília.

Deitada no chão árido do Sertão Pampeano, considerada a regi]ao do planeta mais hostil ao sul do Trópico de Capricórnio, Aline se perguntava onde teria aquele homem albino conseguido o equipamento necessário para encarar o terreno a céu aberto. O sertão – ou deserto, como alguns estudiosos da Universidade Livre do Rio Grande do Sul já começavam a chamar – estendia-se de Bagé a Itaqui e penetrava em áreas da pampa argentina e uruguaia. Os gaúchos que insistiam em viver das tradições foram obrigados a abandonar as casas de fazenda e passaram a morar em bunkers construídos abaixo do solo. A radiação proveniente do sol fizera com que metade da população desenvolvesse algum tipo de doença de pele – ou assim lhe disse o albino misterioso ao justificar sua aparência fantasmagórica. Os uniformes utilizados eram versões terrestres dos uniformes russos utilizados quando das viagens tripuladas a Marte, capazes de suportar os raios solares em ambientes sem nenhuma proteção de ozônio, como a seca pampa da fronteira gaúcha. Kid – assim se identificara o albino – insistira naquela missão como sendo a única forma de resgatar Getúlio.

- Eu já te disse, princesa – Aline torcia a cara cada vez que era chamada daquela forma, mas desistira de corrigir o homem depois da quinta vez – os castelhanos pegaram Getúlio. E nós somos os únicos que podemos ajudá-lo.

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